terça-feira, 13 de março de 2018

Qual é a primeira verdade ensinada na Bíblia?

Qual é a primeira verdade ensinada na Bíblia?

Que Deus existe.
  • Gn 1.1
O texto sagrado, em geral, não faz diretamente a asserção de que Deus existe, e quando o faz não o faz com o propósito de buscar provar a existência Dele. Antes, a existência de Deus é sempre mencionada como pressuposto do que se está dizendo ou como algo óbvio. Assim, a verdade de que Deus existe é ensinada no primeiro versículo da Bíblia simplesmente dizendo que Deus criou os céus e a terra.
Noutras palavras, ao dizer o que Deus fez, pressupõe-se que Deus existe, que há um Deus. Isso é importante na nossa abordagem do tema, pois para nós as Escrituras são a única regra de fé e prática. A Bíblia é toda verdadeira e toda a verdade está na Bíblia. Nós aprendemos com o que a Bíblia ensina, e aprendemos com o modo como ela ensina. Por isso, cremos que Deus existe, e falamos de Deus como um ser que existe. Quando falamos do Senhor, devemos, portanto, nos referir a Ele como alguém presente na sala, não como alguém ausente. Como a Bíblia trata a existência de Deus como algo óbvio, nós também devemos tratar a existência de Deus como algo óbvio. Como a Bíblia pressupõe a existência de Deus em tudo o que ela diz, nós devemos pressupor a existência de Deus em tudo o que dizemos.
A questão que não pode ficar para trás é o que faz a existência de Deus ser óbvia.
O Catecismo de Westminster (item 2) coloca a resposta nestes termos: “A própria luz da natureza no espírito do homem e as obras de Deus claramente manifestam que existe um Deus.”
Paulo explica em Romanos 1.19,20: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis.”
Assim, existe uma revelação de Deus que todo homem possui. Ela está na criação toda, a começar pelo próprio homem, que é feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26ss), e em seguida toda a criação em uníssono anuncia a glória de Deus: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” Salmos 19:1
O homem que diz que não há Deus o faz não por excesso de conhecimento, mas por tolice: “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem.” Salmos 14:1; “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem.” Salmos 53:1
Nestes dois versículos acima, é o néscio, o tolo, o falto de entendimento, que diz que não há Deus, ou seja, que Deus não existe. Mas além da característica de ser tolo, a Palavra de Deus ainda acrescenta a de ser iníquo, corrompido, e de não fazer o bem, somente o mal. Por isso, não é somente tolice, mas também o pecado que faz com que o homem negue a existência de Deus.
Isso fica mais claro em textos como: “Por que blasfema o ímpio de Deus? dizendo no seu coração: Tu não o esquadrinharás?” Salmos 10:13; “A transgressão do ímpio diz no íntimo do meu coração: Não há temor de Deus perante os seus olhos.” Salmos 36:1. Note como neste último versículo é a transgressão do ímpio que fala. Ela declara mais do que as suas palavras.
Assim, quando alguém diz que Deus não existe, isso nunca é o resultado de um raciocínio equilibrado e de um estudo minucioso e imparcial dos fatos e das evidências. Sempre é uma declaração de rebeldia e de insubordinação ao Deus Eterno. Assim, como o pecado é uma transgressão da vontade de Deus manifestada em Sua lei, assim o ateísmo é a afirmação da transgressão. Como se o ímpio dissesse: pequei, e confirmo o meu pecado.
São Paulo nos ensina em Rm 1.18: “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.” Isto é, os homens não deixam que a verdade tenha o seu curso perfeito e final. Em outras palavras, caso eles considerassem bem a si próprios e o mundo real que existe fora deles, diriam com convicção que Deus existe, que Ele é justo e bom, e que Ele é o Todo-poderoso eternamente. Mas eles não permitem que a verdade tenha o seu curso natural, racional, equilibrado e imparcial, antes detêm a verdade em injustiça.
Dessa forma, admitir a existência de Deus não é o maior problema. Todo homem sabe, com algum grau de clareza, que Deus existe. O maior problema para o homem pecador é glorificar a Deus enquanto Deus, e dar-Lhe graças: “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.” (Rm 1.21)
O mundo que existe, portanto, aponta para o Deus que existe. Uma vez que o homem nega o Deus que existe, ele deve entenebrecer o seu entendimento com alguma coisa que explique a si mesmo e ao universo no qual ele vive, sem glorificar a Deus, como se entende de Efésios 4.17,18: “E digo isto, e testifico no Senhor, para que não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração.”
Essa explicação que o homem dá sempre gera um falso deus. Um ateu genuíno, ou seja, um homem que realmente não adora nada, um homem verdadeiramente sem deus (a=não, teu=deus) não existe. O homem sempre adora algo ou alguém, se não for o Deus verdadeiro será sempre um falso deus. Por isso, diz São Paulo: “E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.” (Rm 1.23).
Qualquer argumento a favor da existência de Deus é, portanto, somente confirmatório, isto é, secundário e a posteriori. A existência de Deus é algo de que o homem já sabe intuitivamente, pela revelação de Deus em seu coração e no universo. Os argumentos vem, portanto, apenas para confirmar aquilo que o homem já sabe no seu interior, para colocar em palavras aquilo que o homem sabe em intuição. O próprio Espírito Santo é quem mantém viva a verdade da existência de Deus no coração dos homens (“Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos.” Gn 6.3).
Por que, então, usar argumentos? Porque nós temos argumentos! Porque aquilo que sabemos em nossos corações pode ser posto em palavras e argumentos racionais, equilibrados e imparciais. E qual a utilidade desses argumentos? Eles são úteis para confirmar a fé dos que já crêem, e para desarmar a incredulidade dos que não crêem. Eles são úteis na evangelização à medida que o próprio Espírito Santo pode usá-los, quando são mencionados por um crente, para convencer os corações impenitentes.
Note como Pedro coloca esse ponto: “Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, Tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo.” (1 Pedro 3:15,16)
E note como Paulo usou argumentos, debates, disputas para persuadir pessoas acerca do Reino de Deus: “E, entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus. Mas, como alguns deles se endurecessem e não obedecessem, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano. E durou isto por espaço de dois anos; de tal maneira que todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeus como gregos. E Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias.” (Atos 19:8-11)
A Bíblia, portanto, trata o assunto da existência de Deus de duas formas, (i) ela pressupõe a existência de Deus, e (ii) ela trata a existência de Deus como algo óbvio.
(i) Primeiro importa tratar a existência de Deus como pressuposto. Para isso vamos analisar as opções: se Deus existe, se Deus não existe. Se Deus existe, então Ele nos criou à Sua imagem e semelhança e para a Sua glória e para gozá-lo para sempre. Por isso a nossa vida tem propósito, valor e dignidade, e somos capazes de pensar e de construir coisas. Nós olhamos para o mundo real e vemos verdade e mentira, bondade e maldade, beleza e feiura. E temos certeza que essas coisas estão realmente lá, porque Deus nos deu uma alma capaz de absorver e afetar o mundo em que vivemos. Sabemos o que é verdade comparando com o que Deus revelou, sabemos o que é bom comparando com o caráter de Deus, e sabemos o que é belo comparando com a glória de Deus.
Se Deus não existe, então não temos propósito, não temos imagem nem semelhança. Não temos alma. Somos apenas matéria, átomos que acidentalmente se organizaram em moléculas, que acidentalmente se organizaram em células, e etc. Não somos criatura de Deus, que não existe, portanto, não fomos feitos com um propósito no universo. A nossa existência é um acidente, e acidentes não tem valor. Acidentes acontecem. Nada é realmente verdadeiro, porque nossos pensamentos são apenas acidentes químicos em nosso cérebro. Nada do que nós pensamos pode ser dito verdadeiro, porque nunca sabemos para que direção os componentes químicos em nosso cérebro vai direcionar os nossos pensamentos. Não sabemos se algo é realmente belo, porque só temos o gosto pessoal, e não sabemos se algo é bom, pela mesma razão.
Do ponto de vista do ateu, ele não tem base racional para dizer que uma rosa que acabou de desabrochar é mais bonita do que uma rosa que acabou de murchar. Ele não pode dizer racionalmente que o ateísmo é mais verdadeiro ou plausível do que qualquer outra cosmovisão, porque se o ateísmo for verdadeiro, nunca saberemos a verdade. Um ateu não pode dizer que ajudar uma velhinha a atravessar a rua é melhor do que empurrar a velhinha na frente do ônibus, porque uma velhinha tem o mesmo valor e dignidade que um saco de batatas, visto que são só moléculas.
A cosmovisão ateísta, portanto, é absurda. E é impossível. Deus é o pressuposto necessário para se pensar e fazer qualquer coisa. Toda vez que alguém diz que algo é injusto, ele pressupõe a existência de Deus. Se alguém diz que algo é justo ou injusto, nós devemos sempre perguntar: de acordo com quem? Se Deus existe, então o caráter Dele é o padrão do que é justo. Se Deus não existe, só temos a opinião pessoal.
Quanto ao fato de a existência de Deus ser óbvia. Para o fim deste comentário, vale elencar quatro argumentos: cosmológico, teleológico, ontológico, moral.
O argumento cosmológico é uma resposta à pergunta: por que existe alguma coisa ao invés de coisa nenhuma? E ele pode ser colocado assim (Leibnitz):
  • Tudo o que existe tem uma explicação de sua existência, seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa (p ex. A esfera brilhante à beira da trilha).
  • Se o universo tem uma explicação de sua existência, a explicação é Deus (o universo não gerou a si mesmo, e a própria natureza do universo não é eterna).
  • O universo existe.
  • Portanto, a explicação da existência do universo é Deus.
Ou assim (Kalam):
  • O que quer que comece a existir tem uma causa.
  • O universo começou a existir.
  • Portanto, o universo tem uma causa (e considerando a extensão do objeto de que estamos falando - o universo - a causa tem de ser extremamente poderosa e sábia, ou seja, tem de ser Deus).
Para um estudo mais detalhado, consulte o artigo do Dr. William Lane Craig em http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/cosmological_argument.html
O argumento teleológico é uma resposta à pergunta: por que o mundo que existe tem ordem e propósito? E pode ser colocado assim: A existência de ordem e propósito no universo é sempre reconhecida, com maior ou menor intensidade, pelas pessoas, e demonstra, necessariamente, a existência de inteligência e, portanto, de uma mente que colocou em ordem todas as coisas. Essa mesma idéia está presente nas Escrituras, e o Salmo 104 é o representante mais famoso dentre os textos desse tipo.
O argumento ontológico pode ser colocado assim: Se é possível que Deus exista, então Deus existe. A ideia de perfeição inclui existência, pois aquilo que não existe será algo menos do que perfeito; portanto, desde que temos a ideia de um ser perfeito, aquele ser deve existir pois a ideia inclui sua existência, ou ele seria algo menos do que perfeito. E a explicação segue assim: Deus é o maior ser possível, se existisse algo maior do que Deus, esse algo seria Deus. E, o maior ser possível tem de ser todo-poderoso, conhecer todas as coisas e ser moralmente perfeito em qualquer mundo possível. Mundos possíveis são formas que o mundo poderia ser. Algo como um unicórnio poderia existir em um mundo possível, mas um círculo quadrado não poderia existir em nenhum mundo possível porque é uma contradição lógica. A ideia do máximo ser possível é lógicamente coerente e, sendo o máximo ser possível, ele deve existir em qualquer mundo possível. Dessa forma, o máximo ser possível existe também no mundo real, que é um mundo possível. Portanto, o máximo ser possível existe.
O argumento moral pode ser colocado assim:
  • Se Deus não existe, não existem valores morais objetivos.
  • Valores morais objetivos existem.
  • Portanto, Deus existe.
A natureza de Deus é o ponto de referência para que cada um saiba em que lugar ele mesmo se encontra. Comparando as ações de cada um com a natureza de Deus, podemos saber se algo é certo ou errado, bom ou mau. Mas, se não tivéssemos esse ponto de referência objetivo (fora de nós mesmos), só teríamos a opinião subjetiva de cada pessoa. Se nós pudermos dizer, com certeza, que molestar crianças ou matar pessoas baseado somente na cor da pele é errado para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo em qualquer momento da história, então nós temos que admitir que existem valores morais que estão fora de nós (objetivos), e, portanto, que Deus é a fonte desses valores.