sábado, 11 de novembro de 2017

Consciência Cristã


Um pequeno comentário no Salmo 7



No tempo em que Davi estava sendo perseguido por Saul, fugindo de caverna em caverna, agradecendo todos os dias a Deus por não ter sido capturado e assassinado, alguém chamado Cuxe, de quem não sabemos nada a não ser que ele era benjamita, fez algumas acusações contra Davi.

Seja qual for exatamente o conteúdo da acusação que o tal Cuxe fez, nós sabemos que i- era grave, porque Davi se afligiu tanto por ela que registrou em salmo (cap. 7) sua oração a respeito disso. Nesse salmo, Davi diz que pensa que a pessoa que for culpada da tal acusação mereceria a morte, e não uma morte comum, mas uma morte humilhante,

“Espezinhe no chão a minha vida
e arraste no pó a minha glória”

Além disso, nós sabemos ii- que, seja qual for essa acusação, ela era falsa. Davi estava convicto de sua inocência, pelo menos naquele caso. Ele sabia que não tinha feito nada do mal de que o acusavam. Mais, ele sabia que havia feito exatamente o oposto! Não é que ele não houvesse feito o mal, mas que havia feito o bem. Não que ele não houvesse traído o inocente, mas que havia poupado o que o traiu.

Agora, ele estava em fuga, em menor número (muito menor número), com pouco ou nenhum recurso, e acusado publicamente de crimes infames que não havia cometido e dos quais não podia se defender. Contudo, a consciência limpa é o paraíso, como dizia um dos reformadores menos ilustres.

Esse paraíso foi um lugar de descanso e refúgio para Davi. Exteriormente a sua situação era deplorável, mas ele tinha uma consciência limpa. Podia dormir e descansar em paz..., ops, e acordar também!

Ele sabia que o juiz de toda a terra é o Senhor! O inocente tem sempre o que temer quando é injustamente acusado, mas não se o juiz for Jeová. Simplesmente porque o Juiz de toda a terra nunca é enganado por provas falsas e falsos testemunhos. Nunca é subornado ou pressionado por ninguém. O julgamento Dele é sempre de acordo com a verdade. Mais do que os simples fatos exteriores, o que seria já de grande valia, Ele conhece os fatos interiores, os segredos do coração dos homens. Ele sabe a verdade que se esconde por trás das palavras.

Se Davi tinha de que confiar por saber que o juiz era o Senhor, quanto mais temos nós por saber que Jesus é o nosso Advogado!

Agora Davi tinha algo que resolver. A questão havia sido levantada, não por ele, e agora a verdade e a justiça tinham de ser vindicadas. Mas ele também não poderia ser o vindicador. Ele era a vítima e seus adversários eram muito maiores e mais fortes do que ele. O juiz da terra, Saul, era contrário a ele, e já havia deliberado contra ele. Não havia no mundo tribunal algum a que recorrer. E Davi simplesmente ficar irado contra os caluniadores, e falar palavras de ofensa ou ameaças não poderia mudar nada. Note, aqui chegamos a uma questão muito importante. A questão do julgamento. Pois as pessoas, algumas pessoas até bem intencionadas, pensam já que o Senhor Jesus nos disse “não julgueis para não serdes julgados, pois com a mesma medida com que medirdes vos medirão também,” então não podemos dizer se algo é certo ou errado, verdade ou mentira, muito menos poderia Davi chamar Cuxe de mentiroso, mesmo sabendo que Cuxe havia mentido, porque isso seria julgar, e julgar foi proibido pelo Senhor, conforme nós “vimos” nos versos acima.

O problema é que não vimos nada disso nos versos acima. Jesus não disse “não julgueis.” Ele disse “não julgueis a fim de não serdes julgados.” Noutras palavras, não aplique aos outros critérios que não esteja pronto a aplicar a si mesmo, porque esses critérios será aplicados. Agora isso significa que você pode identificar que algo é mentira ou verdade, e que alguém é verdadeiro ou mentiroso, desde que possa aplicar esses mesmos critérios a si próprio. Além disso, Jesus disse “não condeneis para não serdes condenados.” e isso explica muita coisa sobre o tipo de julgamento que Jesus deseja que nós suspendamos.

De qualquer forma, Davi foi bem criterioso em seguir o ensino do Espírito (sim, o mesmo Espírito que falou nos evangelhos falou nos Salmos) e, portanto, trouxe tudo ao Juiz, àquele que pode julgar com retidão. Aquele que não culpa o inocente e não inocenta o culpado é quem deve julgar a causa.

Aliás, um parêntese, você sabia que o oposto dessas DUAS coisas é abominação ao Senhor? É porque algumas pessoas estão felizes desde que não condenemos os inocentes, e por isso, deixamos os culpados à vontade na sala. Fecha o parêntese.

As autoridades delegadas, derivadas, haviam falhado miseravelmente em fazer o que era certo e identificar a mentira, e por isso não havia a quem apelar se não à Origem de toda a autoridade, o Poder nos céus. Não que não apelemos a Ele antes mesmo de esgotar as instâncias terrenas.

Isto é o que chamam, até com um tom pejorativo como me parece, de imprecação, ou de salmo imprecatório. Um verdadeiro incômodo, uma pedra no sapato dos pregadores moderninhos. É que é tão politicamente incorreto orar a Deus para fazer justiça... Imagine como são infelizes os que tem fome e sede de justiça aos olhos dos nossos pregadores do evangelho fofinho. Mas aos olhos de Jesus eles são felizes! Jesus mesmo fez algumas imprecações.

Será que é pecado orar como Davi orou neste salmo? Foi o Espírito SANTO que inspirou Davi a orar assim, e foi a respeito de Cuxe que ele orou assim! Não foi uma oração em geral, sobre uma generalidade indefinida de pessoas. Não foi a respeito de Hitler, Stalin, Mussolini, Polpot, e outros assassinos famosos, mas a respeito do desconhecido Cuxe que fez uma falsa acusação contra Davi que, se não fosse ascendente direto de Jesus, também seria mais um desconhecido no passado nublado da humanidade. Mas foi uma falsa acusação, feita contra um inocente, e isso é errado, não importa quão pequena seja a pessoa do inocente, ou a pessoa do culpado. A sede de justiça clama por sua água até nos lugares mais remotos e esquecidos. E Deus é a fonte da água viva! Se há alguém para quem pedir socorro contra a injustiça esse alguém é Deus. E, mesmo sabendo que isso pode ofender algum dos meus mais sublimes leitores, tenho que dizer que o único socorro contra a injustiça possível é a justiça. Nada pode resolver a injustiça, senão a justiça. Nada pode corrigir o mal, senão o bem. E aqui, chegamos a mais uma encruzilhada.

Estamos em uma encruzilhada porque eu acabei de fazer um paralelo entre justiça e bem. Injustiça e mal são coisas fáceis de aceitar como paralelas. Mas a mente do brasileiro, especialmente do brasileiro evangélico jovem adulto, não permite com facilidade que ele veja que a relação íntima e inseparável entre o que é bom e o que é justo. Por isso tornou-se corrente entre nós a regra de que é melhor não punir ninguém para não correr o risco de errar e punir alguém que não devia ser punido. Por isso se tornou tão popular em nosso tempo a ideia de que está tudo bem furtar, desde que a vítima seja rica. Está tudo bem desobedecer os pais, desde que seja para buscar a própria felicidade. Está tudo bem mentir, desde que seja para salvar a própria pele. Está tudo bem caluniar desde que seja alguém do time deles, e não do nosso. Está tudo bem trair, adulterar, fornicar, desde que os dois queiram. Está tudo bem blasfemar de Deus, usar o Santo Nome em vão, imitar dons espirituais, desde que seja na brincadeira. Está tudo bem matar, desde que você seja uma vítima da injustiça social. Está tudo bem traficar drogas, desde que você promova alguns bailes, dê algumas cestas básicas, patrocine alguns churrascos. Está tudo bem abortar, desde que isso seja decidido em um plebiscito. E poderia aumentar a lista de pecados modernos indefinidamente. Nós perdemos a capacidade de distinguir as coisas, o branco do preto, para nós tudo é cinza. Não sabemos mais onde o doce fica amargo. Para nós tudo é um grande mingau, uma mistura, uma confusão.

Nós precisamos urgentemente voltar a juntar estes dois conceitos: justiça e bem. Porque não há bem sem justiça.

O Reino de Deus não pode subsistir com a injustiça, seja ela pequena, ou grande. Por isso é que o pequeno Davi, que ainda não era o grande rei Davi, que ainda não havia recebido as promessas messiânicas, veio a Deus em oração e pediu para que o juiz julgasse a falsa acusação de Cuxe, o pequeno e desconhecido Cuxe. A justiça precisava ser feita.

Agora, o que é que Davi esperava receber em resposta de sua oração? E se nós orássemos como Davi, que devíamos esperar em resposta? Pelo quê oramos? Somente por nossos sentimentos, ou pela verdade? Somente pela nossa fama, ou pela justiça? Queremos a queda dos adversários porque criamos ódio contra eles enquanto seres humanos, ou enquanto iníquos? Se os odiamos por serem, simplesmente, então mesmo que se arrependessem, mesmo que Deus os perdoasse, nós os não perdoaríamos. Mas se o que nos incomoda não é a existência deles, mas o mal que eles fazem, então sim conseguimos entender a mente de Davi, e poderemos orar como ele.

Como um primeiro-ministro de Israel disse certa vez, se os guerrilheiros palestinos depusessem as armas hoje, a guerra teria acabado e a paz reinaria, mas se Israel depusesse suas armas hoje, amanhã estaria destruído. Porque essa é a diferença entre os dois. Israel é odiado por existir, mas Israel não odeia assim os palestinos.

Que a malícia cesse, que o mal acabe, que a iniquidade pare, que maldade se esgote, se seque, e não se realize mais. Isso é o que Davi queria. E o justo fosse estabelecido, tivesse permanência, florescesse e prosperasse. Sim, porque a justiça floresce onde o justo faz raízes. E justos precisam de justiça ao seu redor para se nutrir.

De fato, a justiça só pode prevalecer porque Deus é justo. O justo joga conforme as regras e, por isso, estaria em desvantagem diante do injusto, mas só se o juiz não fosse Deus. Por isso, se o justo tiver de florescer neste mundo coberto de injustiça, lotado de gente injusta, até mesmo alguns penetras entre os brasileiros evangélicos jovens adultos, isso terá de acontecer porque Deus fez um milagre, porque Deus interviu na história e fez a justiça prevalecer.

Por esta razão é que Davi pede a Deus, e não a outro, pois nenhum outro vai conseguir. Por isso Tiago fala da oração do justo que muito pode em seus efeitos. Uma associação de justos dificilmente conseguiria sozinha estabelecer a justiça na terra, a menos que tivesse Deus ouvindo suas orações. Isso é o que torna a Igreja tão imbatível, não que ela seja uma associação de justos, mas que ela pertence a um Deus justo.

E quando Davi pede, inspirado pelo Espírito – diga-se novamente, que o justo seja estabelecido, ou, melhor dizendo, profetiza que o justo será estabelecido, não podemos ver aí já uma antecipação da promessa de Cristo à Igreja? As portas do inferno não prevalecerão contra ela!
E como Deus é o juiz de toda a terra, ele vê o coração do ímpio, do mentiroso, mas vê também o coração do reto, do verdadeiro. Por isso, Davi diz que Deus salva o reto de coração! Aquele que é reto não só para mostrar aos outros que é reto, mas é reto porque ama o Senhor, porque ama a retidão. Isso é o que tanto falta em nós, brasileiros evangélicos jovens. Um amor pelo Senhor. Nossa santidade é só mais um esforço para seguir regras que podem ser de Deus ou dos homens, tanto faz para nós. Aparência é tudo. O que será que vão pensar de mim? E isso toma várias nuances. Não é só a máscara do crentinho bitolado e fanático, mas a do discípulo radical, do cristão missionário, do crente descolado, do crente legal, do crente hippie. Deus não se engana com essa conversa de "seja você mesmo". Ninguém se torna mais honesto porque gosta de exibir uma certa classe de pecado e de mau-gosto que outros querem esconder.

Mas a santidade de que fala Davi é aquela que vem do coração. Eu amo o Senhor e por isso ando em seus caminhos. O Senhor me ama e por isso me faz andar em seus caminhos. A hipocrisia não ajuda em nada a nos salvar. Parecer que amamos ao Senhor pode iludir os irmãos, até mesmo a vida toda. Mas Deus olha o nosso coração, Ele sabe se fazemos aquele bem por amor, ou por interesses outros.

Não ajuda em nada ser iníquo e dizer, pelo menos não sou hipócrita. Você só teria a vantagem de não enganar a si próprio, mas iria para o mesmo destino.

Deus é justo. Ele se indigna todos os dias. Ele não se cansa da justiça. Ele não se enfada de fazer o que é justo. A indignação dele não vai se apagando, e Ele se acostumando aos novos tempos, e às novas modas pecaminosas de cada época. Não. O que era injusto e imundo aos olhos Dele há milhares de anos, continua sendo, e ele não parou de se indignar contra o mal. Deus não muda em sua bondade, e por isso não muda em sua justiça. Ele é o mesmo em amor, e portanto é o mesmo em santidade. Deus não suspende os padrões temporariamente. O que é certo e bom sempre lhe agrada. O que é errado e ruim sempre lhe causa indignação. Ele ama a justiça, como dizia aquele mesmo reformador da consciência limpa.

Por isso, porque Ele é amor santo, porque Ele ama e odeia o pecador, Ele está com seus instrumentos de morte preparados, mas esperando, dando tempo ao ímpio para que se arrependa. O iníquo já está na mira. Não pode escapar do julgamento, a menos que se arrependa.

E o mais interessante ficou para o final. A providência de Deus é tal que o instrumento de morte contra o ímpio é a sua própria impiedade. Quanto mais injustiça ele pratica, mais fundo cava um buraco para si próprio. O mal que cai sobre a sua cabeça é a sua própria maldade.

E como em todo bom culto onde Deus é glorificado, o justo Davi termina dizendo que vai fazer aquilo que ele mais gosta de fazer. O mesmo que ele pretende fazer por toda a eternidade. Render graças e cantar louvores ao Nome do Senhor Altíssimo.