quinta-feira, 16 de março de 2017

Carta a um amigo calvinista sobre "resistir a graça"

Esta é uma resposta real ao questionamento de um amigo a respeito da questão fundamental que é sobre ser possível ou nao resistir à graça de Deus.

Eu tentei ser o mais suscinto possível ao tratar do assunto, mesmo sendo algo tão precioso, como é a doutrina da graça. Creio que fui bem sucedido e acabei sendo suscinto além da conta.

Mas já é um começo. Pode ajudar quem está aberto, buscando respostas. Talvez seja de pouca valia para quem já está entrincheirado em uma posição teológica. Mas isso não me incomoda, na verdade, porque não é para estes, nem por estes, que eu escrevo este artigo. Mas sim por aqueles como o meu amigo, que ainda estão abertos a perguntar.

Que Deus te abençoe e que esse seja um passo na caminhada de reflexão, para aqueles que já começaram, e um empurrão para aqueles que ainda nem tentaram, conhecer o amor de Deus que excede todo o entendimento.



------------------------------------------*---------------------------------------------


Paz meu irmão! Pelo que eu entendi a parte difícil de entender para você foi a questão da graça resistível. Imagino então que as outras partes foram mais fáceis de entender. Com isso em mente, estou enviando apenas alguns versículos e explicações curtas para demonstrar que a doutrina da graça inclui o fato de ela ser resistível. Não são todos os textos bíblicos que apontam para essa doutrina sagrada, mas são suficientes, penso eu, para esclarecer as dúvidas. Eu separei os versículos, começando pelos do NT, que eu penso serão mais relevantes para você à primeira vista, e alguns do AT, que deixam isso ainda mais claro.

Quando Estevão enfrentou o julgamento pelo sinédrio, ele esclareceu que o problema dos seus algozes não era falta de argumentos racionais, provas e evidências, nem falta de ação do Espírito Santo para convencê-los. O problema deles era que resistiam ao Espírito Santo:

Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.

Atos 7:51

Jesus, diante de Jerusalém, pronunciou palavras duras de julgamento contra a cidade. Ela havia rejeitado o Messias, e não foi por falta de o Messias querer que ela fosse salva. De fato, o Messias quis, e fez tudo o que era cabível à graça do Senhor fazer para que ela se convencesse, mas ela resistiu. Resistiu porque ela não quis, veja:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

Mateus 23:37

O Espírito Santo pode ser entristecido, e com certeza Ele não é entristecido quando o obedecemos, mas sim quando o resistimos:

E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.

Efésios 4:30

O Senhor disse que o Seu Espírito Santo não contenderia para sempre com o homem. Ora isso pressupõe que o homem oferecia resistência e, por isso, o Espírito necessitava de contender com ele:

Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos.

Gênesis 6:3

A ligação entre resistir ao Espírito e entristecer o Espírito é vista claramente neste trecho de Isaías:

Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.

Isaías 63:10

A doutrina de que é possível resistir ao Espírito Santo, e portanto à graça, é bíblica e sólida.

Não faz parte da sua pergunta, mas eu creio que a doutrina que segue logicamente é a doutrina da universalidade da graça. Ou seja, que a graça para salvação se estende a todas as pessoas, que Deus proveu para a salvação de todas as pessoas, e que as que não são salvas, não o são porque resistem à ação tremenda de amor do Espírito Santo.

Para provar que a graça é universalmente oferecida, eu vou colocar alguns textos bíblicos a seguir, no mesmo método.

São Paulo escrevendo a Tito sobre a prática da vida cristã enuncia sobre a graça:

Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens,

Tito 2:11

Não sobrou espaço para erro de interpretação neste versículo: “a graça salvadora de Deus”, o seu amor para com os homens, e a sua oferta de reconciliação, “se há manifestado”, se tornou, não só disponível, mas realmente ativa, “a todos os homens”, sem exceções aqui. A palavra é "homens", não tipos de homens, não raças, não povos, mas homens, indivíduos.

O apóstolo São João, falando da pessoa de Jesus, e descrevendo-o em sua divindade, diz o seguinte:

Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.

João 1:9

Qual o sentido da palavra luz aqui? É só colocar os nomes no lugar dos pronomes, e fica fácil de entender: todo homem que vem ao mundo vem sob a luz de Cristo de alguma forma. Essa luz capacita todo homem que vem ao mundo para receber a Cristo e aceitar a luz ou rejeitar à luz.

E finalmente, o versículo que foi o divisor de águas na minha vida, o texto que me fez ver que não havia espaço para o calvinismo nas Escrituras Sagradas, é o seguinte:

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.

Romanos 5:18

Aqui, São Paulo deixa claro que: a extensão da graça de Deus é tão ampla quanto a extensão da condenação pelo pecado. Assim como a condenação veio sobre todos os homens, a graça veio sobre todos também.



Depois que entendi este texto, o restante da Bíblia se encaixou como mão na luva. Tudo fez sentido. Meu coração se pacificou, e entendi que “Deus é amor” não é mera propaganda, é realidade. Não estou dizendo que todos os mistérios foram resolvidos. Ficou bastante coisa ainda a ser revelada. Mas o que ainda é um mistério não afeta o que já foi revelado: Deus é amor, Deus ama a todos os homens, Deus oferece a sua graça a todos os homens, porque Deus quer salvar a todos os homens. Os que são condenados o são por sua própria insensatez e resistência. Não porque foram incondicionalmente condenados em um decreto secreto, e criados apenas para provar que o decreto funciona - uma doutrina que não encontra nenhum suporte bíblico.