segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Porque escatologia é importante ou o temível escathon (2)



Há uns quinze anos atrás conheci um rapaz que tinha acabado de se converter. Ele tinha saído de uma vida deprimente e desprezível nas drogas e passado alguns meses em uma casa de recuperação onde se converteu a Cristo e deixou as drogas. Eu conheci logo que ele tinha saído da casa de recuperação, e ele estava procurando um trabalho honesto para recomeçar sua vida e tentar construir alguma coisa boa. Com o currículo e o histórico de vida dele não era fácil. Ele não sabia como fazer nada bem, não tinha nenhuma profissão. Nunca tinha dado atenção aos estudos antes. Então, ele começou a trabalhar como servente de pedreiro.

Um dia, nós combinamos de nos encontrar para fazer alguma coisa, não me lembro bem o que era. Talvez fossemos visitar alguém, ou orar juntos, não tenho certeza. No final nós não fomos a lugar nenhum, e já você saberá porquê. Me lembro de algo nitidamente: o cansaço mental e físico dele naquele dia. Todos os dias de trabalho de um servente de pedreiro costumam ser cheios de serviço pesado. Mas naquele dia ele estava especialmente consternado. Conforme o que ele me disse, o problema era que o seu mestre de obras não achou nenhum serviço realmente necessário para ele fazer, então deu-lhe uma picareta, e mandou ele quebrar o concreto de uma coluna qualquer. Ele passou o dia naquele trabalho que lhe parecia inútil, feito somente para passar o tempo, e isso o cansou mais do que carregar sacos de cimento, carriolas de areia, telhas, bater massa ou qualquer outra coisa.

O nosso espírito, feito à imagem de Deus, é movido pelo propósito. Nós nos sentimos realizados à medida que temos um propósito e acreditamos que aquele propósito é bom e merece ser perseguido. Uma pessoa convicta de algo é mais persistente, e menos propensa a desistir, desanimar, adoecer e parar.

Se o propósito que perseguimos for algo verdadeiro, o potencial é tremendo. E que há que seja mais verdadeiro do que o evangelho? Alguém que está convicto do evangelho, que crê na sua vitória final e inevitável, que crê que o seu trabalho não é vão no Senhor, e que ele tem valor eterno, está muito mais propensa a seguir até o final, e ser fiel em todas as circunstâncias e não olhar para trás nem temer obstáculos e ameaças. É muito mais provável que essa pessoa reclamará menos, murmurará menos, dormirá melhor, comerá melhor, lidará melhor com os problemas cotidianos, pois os verá sob a luz da revelação do fim da história. Ele não se incomoda tanto com as lutas de hoje, e eventuais derrotas, porque olha a vitória certa logo ali a frente. Ele não se sente frustrado pelas inúmeras dificuldades para produzir fruto para o reino de Deus no processo da caminhada, porque ele sabe que o balanço final será infinitamente positivo, e que isso é garantido pela graça de Deus, e não pelo poder humano.

Além dessa vitória final, que é certa, mas está a uma distância que nós não sabemos exatamente como calcular, é um tremendo alívio para o coração daquele que trabalha no campo do Senhor (que, para os fins deste artigo, é a vida toda de todos os cristãos) saber a utilidade e o valor que o Senhor atribui ao trabalho que ele está fazendo hoje mesmo, enquanto a história ainda não terminou, e o estado eterno ainda não começou em toda a sua plenitude.

Se por uma teologia verdadeira, baseada em estudo das Escrituras que seja minucioso, cuidadoso, fiel e iluminado pelo Espírito Santo, o indivíduo perceber que aquilo que está fazendo hoje é abençoado pelo Senhor, tem valor permanente, inclusive para depois da vinda do Senhor, como você acha que ele se sentirá?

Se ele crer que essas almas que está ganhando hoje, serão seus amigos na eternidade, quererá ganhar mais almas?

E se ele crer que a escola que está construindo, ou dirigindo, ou servindo através de suas aulas, contribuirá para produzir salvação e justiça eternas na vida daquelas crianças com quem ele trabalha hoje, você acha que ele se sentirá entusiasmado para acordar as cinco da manhã em uma segunda-feira para ensinar crianças a arte da matemática, a história do mundo e os valores cristãos?

E no caso de ele crer que as leis que está promovendo na política do seu país são a manifestação da vontade do Rei do universo, e serão preservadas quando Ele voltar, você pensa que ele será corajoso o suficiente para defendê-las publica e entusiasticamente em todos os lugares onde for, e profissionalmente introduzi-las no diálogo da sociedade para produzir algo que tem valor eterno e que vai beneficiar a humanidade pela eternidade?

Eu penso que sim. E estes são apenas alguns exemplos. Mas eu poderia falar do cristão que projeta prédios, máquinas, programas, aplicativos, faz cirurgias, carrega sacos, vende produtos, e faz isso com o espírito de quem acredita que está fazendo algo para a glória de Deus, e não para a glória do mundo. Todos eles podem ser beneficiados por uma teologia das coisas do fim que seja verdadeira com tudo aquilo que Cristo disse, e não só com uma parte.

O oposto é verdadeiro. Imagine uma teologia falsa, baseada em um estudo das Escrituras que seja viciado, descuidado, ou por qualquer outro motivo impreciso demais naquilo que é mais essencial. Imagine que o cristão, por causa dessa teologia ruim, passe a acreditar que Jesus não pode voltar a qualquer momento, ou que, mesmo voltando a qualquer momento, voltará para nos raptar desse mundo, e acabar com tudo o que quer que seja bom ou ruim que tenhamos feito. Pense que, por causa dessa teologia, ele creia que a maior parte do nosso trabalho não tem valor eterno, exceto os folhetos que entregamos e as vezes que falamos do “plano de salvação” para alguém.



Nesse caso, você pensa que ele tem motivo para se empolgar quando acorda para ir para o trabalho na segunda-feira? Qualquer que seja o trabalho, ele se tornará penoso, e cansativo, não porque seja ruim em si, mas porque o cristão se sente como se estivesse quebrando uma coluna de concreto com uma picareta, arrancando pedacinhos dela, só para gastar o tempo e justificar o seu salário, pois daqui a pouco o mestre de obras virá com um trator e vai arrancar aquele toco de concreto apenas para mostrar que o seu trabalho era inútil.