sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Por que calvinismo e arminianismo?

Este artigo não é uma defesa de nenhuma das duas posições. Não porque eu seja contra discutir isso, o que ficará mais claro ao longo do texto. E sim porque quero falar de algo que é mais essencial e importante e que subjaz da discussão entre esses dois grupos que, aliás, não são as únicas duas posições possíveis no assunto soteriologia. Escolhi falar deles porque fica mais fácil de entender o que vou dizer se eu usar essa discussão como exemplo do que eu se eu disser, por exemplo, “por que discutir luteranismo e calvinismo”, ou “por que discutir darbinismo e pós-milenismo”. É bem possível que muito mais pessoas já tenham testemunhado ou se envolvido na questão entre calvinismo e arminianismo do que entre calvinismo e luteranismo, e portanto estejam mais familiarizadas com o que vou dizer.

Além disso, antes de começar a falar o que realmente quero falar, é bom, a bem da honestidade e da imparcialidade, repetir para o leitor que eu sou arminiano. Essa é minha posição, e eu gosto muito de ser arminiano. Alguém dirá que defendo esta posição porque gosto de Armínio. Eu diria que sim, é verdade, gosto muito dele. Mas a pergunta certa é: por que gosto dele? Gosto de Armínio porque ele interpretou as Escrituras muito melhor do que os outros. Em outras palavras, a minha questão é que as Escrituras me parecem dizer exatamente o que Armínio disse no que toca à predestinação e eleição. Portanto, sim eu creio que a Bíblia é o livro mais arminiano que eu já li. E é por isso que sou arminiano.

Dado este fato, eu gostaria de discutir sobre o pano de fundo das discussões entre arminianos e calvinistas. Com isso quero falar dos pressupostos que fazem o fundamento para que esse tipo de discussão exista.

Eu conheço irmãos dos dois lados que não se consideram irmãos. Alguns que dedicam os seus estudos, quiçá a sua própria vida, ao esforço de refutar irrefutavelmente o lado oposto. Eu creio que há muito exagero nisso, às vezes. E embora eu creia que possamos trabalhar juntos, e servir ao Senhor juntos, mesmo tendo posições diferentes nestes assuntos, principalmente quando o trabalho é missionário, ainda admiro os irmãos que se esforçam para entender e explicar esses assuntos, mesmo os que se esforçam para me dissuadir. Jájá chego lá.

É que vejo um mal muito pior rondando a igreja de Jesus do que os arminianos e calvinistas com suas discussões intermináveis. Um mal mais devastador e mais tenebroso do que todas as palavras funestas que calvinistas e arminianos já disseram um para o outro.

Que é esse mal? Explico. Quando um arminiano e um calvinista discutem, eles podem se considerar como estando em dois lados totalmente opostos de pensamento. Um crê que o homem tem algum tipo liberdade de escolha, outro crê que o homem não tem liberdade nenhuma. Um crê que Deus ama a todos, outro crê que Deus só ama alguns. Um crê que a justificação é pela fé, outro que a fé é pela justificação. E as diferenças vão se aglutinando.

Eles podem pensar que não tem nada em comum, e às vezes podem até crer que servem deuses diferentes. Um famoso calvinista já falecido disse que os arminianos eram adoradores de Baal. E outros, bem vivinhos ainda hoje, dizem que o Deus dos arminianos é afeminado. Alguns arminianos dizem que o Deus dos calvinistas age como um demônio porque cria homens e faz com que eles pequem para que vão para o inferno. E os elogios mútuos seguem nessa toada em alguns círculos, e nós sabemos disso, alguns de nós até já dissemos isso, e muitos já se arrependeram profundamente de o terem feito. É de fato lamentável que tantas blasfêmias tenha sido ditas para defender uma doutrina tão preciosa como a doutrina da graça.

Contudo, por mais distantes que eles se considerem estar, tanto uns como outros guardam algo essencial em comum. Calvinistas e arminianos, tanto os melhores e mais espirituais quanto os piores e mais carnais, quando discutem isso olham para o mesmo livro, concordam que esse livro contém a verdade absoluta sobre Deus e o mundo, e que é possível descobrir o que o Autor quis dizer ao inspirar o livro.

Eles abrem a Bíblia em diversos textos e tentam interpretar o texto buscando o real significado. Eles acreditam que se conseguirem mostrar para o seu irmão do lado oposto da discussão que o texto bíblico que estão lendo quer dizer que isso ou aquilo, o irmão do outro lado aceitará e se convencerá. Ambos se esforçam nesse sentido, lendo a Bíblia cada vez mais, de várias maneiras, usando dicionários, concordâncias, comentários, orando, jejuando, sempre na busca insaciável pela verdade. Porque eles acreditam que a verdade existe e que ela merece ser defendida.

Porém, creia você ou não, esse pressuposto de verdade que pode parecer tão óbvio, foi abandonado na teologia contemporânea. Você já se perguntou porque é que os teólogos da prosperidade não discutem calvinismo e arminianismo? Bem, porque para eles não interessa o que o Autor do Livro quis dizer! Por que é que os liberais acham essa discussão ultrapassada e inútil? Porque eles pensam que o que o Autor do Livro quis dizer, não importa!

Um certo famoso, Caio Fábio, queridinho dos liberais, disse que essa discussão é ultrapassada, é uma coisa do século XVII, XVIII, não dos nossos dias. Por que? Porque nos séculos XVII e XVIII as pessoas pensavam em termos de verdade. Elas liam a Bíblia e queriam saber a verdade, então elas discutiam sobre o significado da Bíblia. Mas nos nossos tempos, as pessoas não pensam mais em termos de verdade e sim de opinião, de ideologia. Você pode ler a Bíblia e chegar em uma conclusão. Se for boa para você, que seja verdadeira para você. Mas para mim, eu cheguei em outra conclusão, diferente da sua, mas verdadeira para mim.

Não há diferença essencial entre os teólogos da prosperidade, e os liberais. Porque para ambos o que o texto diz depende de quem está lendo, de para quê o leitor quer usar o texto. O Autor do Livro, não apita mais nada. Estes cometeram uma blasfêmia muito pior do que a dos calvinistas e arminianos inflamados. Os últimos ainda querem ouvir o que Deus está dizendo, mas os primeiros nem querem mais saber o que Ele disse.

Os arminianos e calvinistas tem mais em comum do que imaginam, porque para eles o que o Autor do Livro disse é essencial! É tudo! É mais importante do que qualquer outro assunto de que se possa conversar. Eles estão absorvidos pela busca da verdade. A Palavra de Deus tem valor inestimável, inextinguível, inexplicável, absoluto e eterno. Que eles demorem mais mil anos discutindo predestinação e eleição até chegarem a uma conclusão, eles não vão parar, porque o valor da verdade de Deus é maior do que mil anos, é a eternidade. Contudo, os intelectuais, os da prosperidade, os liberais, não acham que a discussão valha o tempo que gastamos com ela, porque a verdade não é eterna, ela muda conforme os tempos, as culturas, os homens. Para eles a Bíblia não é mais Sagrada, é “biblos”, livros antigos que podemos usar hoje.

Não quero com isso dizer que não há exageros nessas discussões. Mas quero dizer que prefiro um milhão de vezes um irmão que ama a Bíblia e tenta me provar que estou errado com base nela, do que um que diz que não se interessa pelo que ela diz, e, portanto, não quer me provar nada, nem me convencer de nada. Eu prefiro um corajoso, que mesmo se enganando muitas vezes, e tropeçando em muitos textos até descobrir o real sentido, tenha ousadia de ler a Bíblia e querer encontrar nela a verdade, do que um covarde que se esforça para nunca entender o que texto quer dizer, que evita toda e qualquer discussão, simplesmente porque não acha a verdade algo importante e valioso.

Eu amo meus irmãos calvinistas, embora creia que eles estão profundamente enganados, e que o erro deles causa muitos problemas na igreja. Eu gostaria que todos os calvinistas nutrissem o mesmo sentimento de amor por mim, e me recebessem nas suas igrejas da mesma maneira como são afetuosamente recebidos na minha. Contudo, prefiro muito mais ser detestado por um calvinista que pensa que entendi o texto errado, do que ser tolerado por um liberal que não se interessa pelo que o texto diz.