sábado, 21 de janeiro de 2017

O temível Escathon!


Escatologia é uma palavra grande que assusta muita gente. Na verdade, há muitos líderes cristãos que acham essa doutrina inútil. De fato, eles não diriam isso claramente, mas, uma vez que não dedicam nenhum tempo para estudá-la, muito menos para ensiná-la, mostram claramente que não lhe atribuem importância real, senão teórica e limitada às curiosidades da época de seminário.

Mais importantes do que ela, pensam, são as doutrinas mais “práticas”, menos futurísticas, mais relacionadas ao dia a dia do indivíduo, como as doutrinas éticas do casamento, da família, da criação de filhos, de cura, dos batismos, de missões, etc.

Não é errado pregar sobre essas doutrinas da ética cristã, de missões e etc. É muito importante estudá-las, crê-las, vivê-las e ensiná-las profundamente. O que quero apontar, antes de tudo nessa discussão, é que creio que a escatologia – daqui a pouco veremos o significado dessa palavra grande – não é uma doutrina menos importante, muito menos inútil. Creio que ela é essencial e que dependendo da posição que se tomar com relação a ela, as outras doutrinas serão mais ou menos afetadas.

Isso ficará mais claro quando estivermos no fim da discussão, portanto, tenha paciência. Contudo, é possível introduzir em traços largos o que quero dizer com o fato de que a nossa escatologia influência as demais doutrinas depois que, pelo menos, a palavra escatologia seja definida.

Escatologia é o estudo do eschaton, das últimas coisas. Não é simplesmente o estudo do futuro, mas das últimas coisas. Algumas dessas coisas já chegaram, outras ainda chegarão. O destino da alma após a morte, por exemplo, é parte da escatologia. Perguntas como: a alma está consciente após a morte?, a alma vai para o inferno?, vai para o céu?, como é a existência da alma após a morte?, todas estão inclusas na escatologia tocando ao fim da alma humana. Além disso, a escatologia também trata de outras questões relacionadas ao fim do universo. Perguntas como: o mundo vai acabar?, como vai acabar?, a igreja triunfará finalmente?, a terra desaparecerá?, Jesus voltará?, como será a Sua vinda?, estão inclusas nessa segunda divisão da escatologia.

Esclarecido o que é escatologia, vou tentar mostrar em traços bem largos, sem preocupação com detalhes ou com provar alguma coisa por enquanto, somente para introduzir a ideia, que a maneira como respondemos essas perguntas afetam direta ou indiretamente a maneira como pensamos sobre as outras doutrinas, inclusive as éticas e principalmente missões.

Se você, por exemplo, crer que a alma humana não tem existência ou consciência fora do corpo, tenderá a preservar uma ética do corpo que o venera com mais afinco do que quem crê que a alma existe e tem consciência fora dele. Vide as muitas leis referentes ao corpo que os advogados do sono da alma tem: não coma tal carne (aliás, não coma carne), não faça isso, não faça aquilo, etc. Note que isso não é uma regra inquebrável, mas estabelece uma tendência ética que é visível e palpável no cotidiano dos que creem, na cultura que eles formam ao redor daquela posição teológica.

Se a sua igreja crer que triunfará finalmente na história, a sua tendência será de envolver mais a igreja nos assuntos da política, das leis, da cultura e da sociedade, pois vocês crerão que são agentes ativos num processo histórico de expansão do Reino de Deus. Se vocês crerem que a igreja será eventualmente derrotada e tirada do mundo às pressas e secretamente para que o Anticristo tome o controle, a sua tendência será não se envolver nas questões políticas, na construção da sociedade, já que será um esforço inútil, e alguns até vão dizer que será uma colaboração para o reino do Anticristo.

Mais uma vez, isso não é uma regra inquebrável. As igrejas podem quebrar essas regras e trabalhar de forma inconsistente com a sua posição quanto à escatologia. Mas o fato é que a tendência está lá, e ela estabelece uma mentalidade definida que, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor intensidade, se mostrará na prática.

Não quero tratar desta vez sobre o destino do homem após a morte, mas quero tratar mais das questões relacionadas ao universo, especificamente o divisor de águas que é o milênio. Portanto, nos parágrafos a seguir pretendo dar um panorama das posições que existem dentro do espectro ortodoxo, ou seja, dentro do verdadeiro cristianismo, excluídas as escatologias ateístas, liberais, e heréticas em geral. Não pretendo defender ou refutar nenhuma delas por enquanto. Apenas apresentar, em linhas gerais, o que elas significam e qual o panorama do fim do universo que elas propõem.

Talvez, no futuro, eu passe por cada uma delas refutando as que creio estarem equivocadas, e defendendo a que creio estar correta. No entanto, é justo desde já explicitar que sou um pré-milenista histórico. O que significa que, bem, daqui a pouco eu explico.

A Bíblia fala do milênio explicitamente em Apocalipse 20.1-6, em que trata da prisão de Satanás por mil anos, durante os quais a igreja reina com Cristo. A cristandade se divide aqui em dois grupos principais que depois se subdividem em outros grupos. Primeiro, os que creem que a segunda vinda de Jesus é absolutamente necessária para inaugurar esse milênio, estes são os pré-milenistas. Segundo, os que creem que a segunda vinda de Jesus só ocorrerá após o milênio, estes são os pós-milenistas.

Os pré-milenistas são subdivididos em dois grupos principais, os dispensacionalistas (também chamados de darbinistas, ou pré-tribulacionistas), e os históricos (ou pós-tribulacionistas).

Os dispensacionalistas creem que o Senhor Jesus voltará sete anos antes do milênio, mas não descerá até a terra, antes apenas até os ares, e arrebatará de forma secreta e invisível o seu povo, que ficará com ele por sete anos. Durante esses sete anos, que são a tribulação, o Anticristo governará o mundo, até que, no fim dos sete anos, o Senhor Jesus voltará acompanhado da sua igreja e derrotará o Anticristo e estabelecerá o milênio. Esta é a posição mais popular entre os evangélicos dos últimos, digamos, 100 anos de história da igreja.

Os históricos, entre os quais eu, creem que o Senhor Jesus voltará e estabelecerá o milênio. É isso, basicamente. Alguns, como eu, creem num período de tribulação antes da vinda do Senhor, mas acreditam que a igreja estará aqui, lutando, dando seu próprio sangue, e vencendo, pelo Reino de Deus até que o Rei venha.

Os pós-milenistas são subdivididos em outros dois grupos principais. Os pós-milenistas, propriamente ditos, e os amilenistas.

Os pós-milenistas creem que a igreja estabelecerá o milênio conquistando o mundo para Cristo por meio da evangelização e do ensino. E que Jesus, assim, reinará no mundo por meio da igreja. Ao final desse período, Jesus virá pessoalmente para julgar o mundo e estabelecer o estado eterno, de glória para os crentes, e tormento para os incrédulos.

Os amilenistas, por sua vez, creem que o milênio já está ocorrendo, mas não terra e sim no céu. Uma vez que Cristo e sua igreja triunfante reinam gloriosamente nos céus, não há que se esperar por nenhum reino visível na terra. Eles creem que Jesus pode voltar a qualquer momento, não para estabelecer o milênio, mas para julgar o mundo e estabelecer o estado eterno.

Como eu disse, isso é apenas um panorama, em linhas gerais, sem preocupação com detalhes. Se entrarmos nos tais detalhes, as subdivisões vão aumentar bastante. Mas todas elas se encaixam mais ou menos nos modelos que eu apresentei aqui.

Embora eu creia que a minha posição esteja certa, pelo menos mais certa que as outras, quero esclarecer que todas as quatro são posições ortodoxas. Nenhuma delas é herética, embora, em alguns sentidos, algumas tenham de estar erradas para que uma esteja certa. Todas, contudo, concordam em que: 1- Jesus Cristo voltará, 2- Ele julgará a todos, 3- ímpios serão condenados eternamente, 4- crentes serão salvos eternamente, 5- no final a vitória é nossa, de um jeito ou de outro, 6- Cristo reinará eternamente, 7- a igreja reinará com Ele, e outras tantas que eu poderia ficar aqui listando. Estas, porém, são suficientes para exemplificar porque todas são ortodoxas.

Ainda é importante dizer que o Apocalipse não é o único livro sobre escatologia na Bíblia. Aliás a Bíblia está cheia de escatologia do começo ao fim. E esses modelos são feitos com a intenção de nos ajudar a entender as promessas que nos foram feitas e a viver na expectativa do seu cumprimento. É nisso que as diferenças fazem diferença! Pois um modelo mais ou menos falso, nos fará ter expectativas mais ou menos falsas e afetará a nossa forma de esperar.

Num próximo artigo quero tratar de um outro critério, além do milênio, que eu creio que é muito importante para a nossa discussão: o critério otimismo ou pessimismo.