terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Sobre ser honesto a respeito de si mesmo

Dia desses um amigo me disse que o problema das pessoas é que elas não sabem o quão perfeitas elas são. A solução para tais pessoas não é tentar corrigi-las, dizendo o quão mau é o comportamento delas, mas sim ensinando-as o quão boas elas já são.

Eu olhei desconfiado para ele, como quem acha que ele está contando uma piada. Mas, de fato, ele acreditava nisso, e até mostrou na Bíblia onde ele achava que isso estava escrito. Foi lá na criação do mundo, quando Deus disse que viu tudo quanto havia criado, e “eis que era tudo muito bom”. Então ele estufou-se dizendo: “está vendo!? Fomos criados bons. Então somos bons. Só temos que nos lembrar disso”.

Não preciso insistir muito para dizer que não concordo totalmente com isso, embora não discorde totalmente disso. Como assim? Quero dizer: concordo plenamente que tudo que Deus criou é bom! Concordo, que Deus criou o homem bom. Que, portanto, Deus criou você muito bom. O que eu não concordo, é que você seja, hoje, bom. Ou que a maneira correta de te ajudar seja somente lembrar você o quão bom você já é. Isso é o que não posso concordar.

De fato, Deus é bom, e criou um mundo bom. Mas o homem, no exercício de sua liberdade, abusou dela e caiu. E o resto da história você está vivendo hoje. A solução de Deus não foi dizer para o homem lá no jardim: “Oh não! Você é bom! Você é maravilhoso! Você não tem defeitos! Você precisa se lembrar do quão bom Eu te criei!”.

O homem caiu, e mais rápido do que ninguém, Deus declarou ao homem o que isso significava: ele não era mais bom, nem perfeito, nem santo. O homem, depois da queda é mau, imperfeito e profano.

Tanto é assim, que Deus não deu ao homem mais um tempo no Jardim do Éden, para ver se ele se lembrava do quão bom ele era, e então voltasse. Deus tocou o homem de lá. E colocou um anjo mal-encarado na porta, com uma “espada flamejante” para garantir que o homem não entrasse lá de novo.

Mas não é só o meu amigo que acredita nisso. A maioria das pessoas compram essa ideia de forma irrefletida, a respeito dos outros, e a respeito de si mesmas.

Há uma estorinha circulando na internet, há um tempo aliás, de uma suposta tribo africana que chama os seus criminosos para uma reunião no centro da aldeia na qual todos, cada um por sua vez, fala para ele todas as qualidades que ele tem, como ele é bom, para que ele possa se lembrar de sua verdadeira natureza e então deixar de ser um criminoso.

Quem é que sabe se isso é verdade? Se essa tribo existe ou não? Eu não sei.

Bom, o fato é que nós podemos falar algo bom aos homens, não lembrando-lhes de uma suposta bondade que eles já tem. Mas lembrando-lhes do quão bons eles deveriam ser. E do quão bons eles podem ser. Explico.

Quando falo do quão bom o elemento deve ser, faço ele se lembrar do quão bom ele foi criado por Deus, e de como a vontade de Deus é boa para ele. Isso é o que chamamos de pregar a lei. São Paulo, São Pedro, Estevão, John Wesley, George Whitefiled, Charles Spurgeon, Ray Comfort, William Burt Pope, e a lista segue, dos maiores evangelistas e teólogos da história do cristianismo que ensinam a mesma lição: a lei é o professor que Deus usa para conduzir o homem a Jesus.

Nós dizemos ao homem como Deus o criou bom. E explicamos o quão bom é esse bom no qual ele foi criado. É o bom dos 10 mandamentos. O bom do maior mandamento de todos, e do segundo semelhante a ele (preciso lembrar você quais são esses mandamentos?). Não demora muito para que ele perceba que está muito longe de ser bom desse jeito. E se demorar, nós aceleramos o processo explicando como ele quebrou cada um dos mandamentos ao longo da sua vida, se tornando sempre pior e mais distante de ser como foi criado para ser.

É assim que ensinamos ao homem o quão bom ele deveria ser. O propósito de pregar assim é conduzir o homem ao arrependimento. Mas não podemos terminar aqui. Porque o evangelho é uma boa notícia, e dizer aos homens o quão maus eles são, embora seja uma verdade, ainda não é uma boa notícia. É contudo, parte da notícia, e é importante fazer isso claro para preparar os corações daqueles que nos ouvem, de modo a que recebam a mensagem do evangelho com alegria, quando nós passarmos para o segundo ponto.

Agora vamos então ao segundo estágio: ensinar o homem o quão bom ele pode ser!

Aí, agora ele está arrependido, e desconfiado de si mesmo, podemos falar com entusiasmo que Jesus é o salvador. Ou seja, quem pode fazer o homem ser o que ele foi criado para ser: bom.

O problema da nossa pregação, e da fé de muitos crentes, é que eles acreditam somente no perdão e não na salvação. Porque o perdão é simplesmente dizer que Jesus pagou o preço do seu pecado na cruz, e que Deus, então, com base na obra de Cristo, e por meio da sua fé, não te cobra, não te condena. Mas salvação, é outra coisa. Salvação é para que você não só não seja condenado, mas para que não tenha de que ser condenado. É te livrar não só da condenação pelos seus crimes, mas dos seus crimes. De tal maneira é a salvação, que o salvo é livre não só da pena, mas do crime.

Como São Paulo explica: o que mentia não mente mais, mas fala a verdade com o seu próximo; o que roubava, não rouba mais, mas trabalho com as próprias mãos para que possa ter e ajudar ao que não tem.

O Senhor Jesus também explica isso. Veja como quando ele salvou a mulher adúltera que estava prestes a ser apedrejada. Ele não salvou ela somente da pena (apedrejamento) mas do pecado: “nem Eu tampouco te condeno. Vá e não peques mais”.

Então, ela recebeu, naquele momento, não só uma sentença favorável para não ser condenada, mas também uma carta de alforria para ser livre, e não pecar mais.

É a junção perfeita do arrependimento e da fé. Como diz o hino antigo: “resgatados fomos, para nunca mais pecar”!

Há vários vídeos de professores na internet dizendo que a melhor maneira de ensinar um aluno é dizer o quão bom ele é, elogiá-lo e inflar o ego dele o máximo que você puder. Realmente, elogiar é algo bom. Mas a Bíblia também fala de punições, repreensões, admoestações. Tudo isso faz parte do verdadeiro amadurecimento. E toda criança tem o direito de ser repreendida quando faz o mal, e elogiada quando faz o bem. É assim que se ensina.

Não posso, de forma alguma, discordar que, em muitos casos, fazer elogios é eficaz e ajuda realmente crianças que não conseguem se comportar bem. Principalmente quando o problema do aluno não é uma pura perversidade, mas um padrão de pensamento a respeito de si mesmo, que não abre espaço para ser algo melhor. Quando ele se vê sempre fraco, lento, improdutivo, pode ser que passe manifestar pecados como preguiça, que são na verdade fruto do desinteresse que é gerado pela falta de autoconfiança. Nesses casos, é útil fazer que a criança entenda que ela tem toda a capacidade de fazer como qualquer outro. Que ela tem a inteligência, a força e a beleza que necessita. Mas uma vez afirmada essa realidade, a criança precisa entender que a preguiça não será tolerada, assim como bater nos amigos, humilhá-los, abusar da paciência do professor e dos amigos, etc.

Jó, um dos poucos homens na Bíblia aos quais o próprio Deus elogia em seu caráter e moral, disse: “Ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; antes, ao meu Juiz pediria misericórdia”. Se Jó, que era Jó, pediria misericórdia, o que eu pediria?