quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Sobre autoestima e humildade



“Só não sou perfeito porque sou humilde.”

Aprendi essa frase com um amigo, muito querido, e, como é óbvio, reproduzi-a tanto quanto pude todas as vezes que queria fazer meus amigos rirem, até que, finalmente (o que não demorou muito) a piada perdeu a graça.

Todavia, por mais que seja verdadeiramente uma piada, é o estilo de vida de muita gente. A quantidade enorme de pessoas que anda regurgitando todo o bem que já fizeram, ou que acreditam que fizeram, ou que querem que nós acreditemos que fizeram, é tão grande que, se fosse verdade, o mundo não teria nenhum problema. De fato, já dizia um filósofo francês, ateu, socialista, pós-moderno, com o qual eu não concordo, que “o inferno são os outros”. E assim vive boa parte, se não a maior parte, da humanidade: acreditando que o mundo seria perfeito se todos fossem como eles, e que o problema do mundo são os outros.

Note o problema da autoestima. Uma baixa autoestima é, basicamente, o problema de todo mundo. Pelo menos nessa forma de pensamento. E para resolver esse problema há uma quantidade imensa de livros, autores, psicólogos, filósofos, artistas, todos dizendo basicamente a mesma coisa, e, para ser sincero, usando as mesmas palavras, num mantra constante, ininterrupto, maçante, e viciante: ame a si próprio, cuide de si, faça o que você gosta (só o que você gosta), aproveite o máximo todos os prazeres da vida.

Se o seu casamento não te faz sentir bem consigo mesmo, divorcie. Se seu chefe não te faz sentir bem consigo mesmo, largue o trabalho. Se seu professor não te faz sentir bem, confortável, não o respeite. Se seu líder não te “inspira” a fazer o que você “ama”, não obedeça. Se seu pastor não te faz sentir maravilhoso, inteligente, cheio, forte, abandone-o, critique-o, publique indiretas no Facebook, pare de dar o dízimo. Se seu filho te incomoda, pague uma babá, entrega para a avó, sei lá. Se ele ainda não nasceu, não estava nos seus planos, vai “atrapalhar” a sua “vida”, mate-o.

Por que sofrer, se você pode fazer os outros sofrerem? Por que se humilhar, se você pode humilhar os outros? Por que cuidar dos outros, se você pode cuidar de você mesmo? Por que comprar algo para outros, se você comprar algo para você mesmo? Por que pensar nos outros, se você pode pensar em si mesmo?

A vida monástica, como movimento histórico no cristianismo, produziu alguns dos maiores gênios e santos que já pisaram neste mundo. São Bento, Santo Agostinho, Lutero foram monges. Mas, como tudo que os homens fazem tem algum porém, já produziu as maiores bizarrices também. Há relatos de monges no passado que, literalmente, ficavam horas olhando para o próprio umbigo, até que entrassem em um estado de êxtase espiritual, no qual, supostamente, se encontrariam com o Senhor Jesus.

Eu não sei se fazer isso pode ajudar a chegar ao tal êxtase e, no que toca a mim pelo menos, duvido que algum deles tenham alguma vez se encontrado com o Senhor Jesus por ter ficado horas ininterruptas olhando, concentradamente, pra o próprio umbigo.

Hoje temos poucos monges olhando para o próprio umbigo. Na verdade, os monges de hoje em dia são bastante envolvidos na sociedade, tentando cuidar dos outros, dos mais pobres. Eles abandonaram o umbigo há um tempo. Em compensação, temos um mar de gente olhando, cada um, para o seu próprio umbigo. E, o que é pior, dizendo que assim é que tem que ser, e aconselhando uns aos outros a serem assim.

Aquele que vê a carteira do outro caindo no chão, e, correndo, a devolve é o “santinho” o “trouxa”. Aquele que perde um emprego por falar a verdade, e não enganar um cliente, é o “moralista” - bem, na verdade a lista de adjetivos é diferente e bem mais baixa, mas não cabe colocar aqui neste texto. E o que decide manter uma vida sexual pura? Esse, coitado, é uma corsa (os entendidos entenderão), um frouxo, um banana, emasculado. Ou, no caso da moça, é impronunciável o tipo de afronta que ela sofrerá por isso. O problema, para esclarecer bem este último caso, é que as pessoas não podem entender porque alguém se privaria, a qualquer momento, de algo tão prazeroso como o sexo! Alguém que não pensa somente em como o “eu” será satisfeito. Alguém que não sonha constantemente com a satisfação dos seus próprios desejos (sim! Porque, acredite você ou não, os santinhos também tem desejos, só que não fazem deles a sua prioridade) é imediatamente taxado como tolo, imbecil.

O amor próprio, o desejo de cuidar e satisfazer a si mesmo, tornou-se o valor moral que fundamenta toda a ação humana. Tudo tem que ser explicado, de alguma maneira, pelos interesses, manifestos ou ocultos, do indivíduo.

Para deixar esse assunto bem claro, pense na pergunta que guia as decisões dessas pessoas. Será: "o que eu quero fazer?" Ou será: "o que é certo fazer?" ?

Não estou dizendo que ninguém pergunte sobre o que é certo e errado. Estou dizendo que essa pergunta não dirige as decisões desse grande número de pessoas.

Para ser justo, tenho que admitir que: primeiro, isso não é privilégio da pós-modernidade, é um traço da humanidade caída; segundo, que obviamente há abusos dos que dizem ser contra esse tipo de filosofia de vida, e não é deles que estou tratando agora; terceiro, que o amor próprio não é, por si só, o problema. A questão do amor próprio é o abuso dele. É fazer do amor próprio o guia e a prioridade da sua vida. Deus sabe que você se ama, eu sei que você se ama, e você sabe que eu me amo. Nós não temos que nos esforçar para isso, porque nós já nos amamos. Demais até.

Bom, feitas essas ressalvas, posso agora falar o que realmente quero. E se você está perdendo a paciência, por favor, aguente mais um pouco. Já chegamos! Se sair agora vai perder a cereja do bolo!

Aquilo que eu acredito que pode nos ajudar a sair do problema de baixa autoestima sem, contudo, cair no método umbigocêntrico que acabei de refutar.

Veja o que o Senhor Jesus disse: “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.”

Eu creio que humildade em Jesus é condescendência: Ele baixou de sua glória, por algum tempo, e tomou a nossa natureza, tornando-se Homem. Mas, humildade em nós é menos do que condescendência. Veja que, no nosso caso, nós temos um trono de glória para deixar para trás, a não ser o da falsa glória, ou, falando como o Apóstolo, o da vanglória.

Portanto, humildade, no nosso caso, é ser sincero. É parar de fingir que somos melhores do que somos. Parar de mentir e regurgitar “boas obras” que nunca praticamos, santidade que nunca tivemos, misericórdia que nunca demos, verdades que nunca falamos, coragem que nunca tivemos, bravura que nunca mostramos. Quando Jesus se fez pecado por nós, foi condescendência. Quando nós confessamos que somos maus e pecadores, é sinceridade.

Quando entendemos isso, alguns efeitos se seguem: 1- paramos de justificar os nossos erros – pecados. Claro, porque não tem justificativa, e estamos sendo sinceros, não podemos inventar uma. 2- paramos de culpar os outros pelos nossos erros – pecados. Claro, porque a culpa não é deles, e estamos sendo sinceros, não podemos caluniá-los. 3- abrimos caminho para a transformação. Claro, porque nunca íamos transformar nada enquanto continuássemos escondendo toda aquela terra e cabelos embaixo do tapete. 4- se adicionarmos fé em Jesus à equação, podemos ser perdoados e libertos daquele vício que estávamos tentando esconder. 5- a nossa autoestima melhora.

Como se humilhar pode melhorar a sua autoestima? Simples: você sente paz, porque não tem mais que provar para ninguém uma mentira. Porque não tem que se parecer com algo que não é, e um peso enorme cai dos seus ombros, não quando você se defende, mas quando você confessa a sua própria miséria. Um homem humilde acha fácil rir de si próprio. Se lhe acham pobre, ele não se ofende, porque sabe que não tem nada mesmo a oferecer a ninguém. É muito difícil machucar a autoestima de um homem humilde, mas um homem orgulhoso se fere facilmente. A autoestima de um homem que sabe que merecia o inferno, mas não vai para lá porque é amado do Senhor, não se abala facilmente, porque não esta baseada nas suas próprias qualidades mas nas qualidades – atributos – Daquele que nunca muda, e que é eterno.

Penso que essa é uma maneira muito melhor de lidar com os problemas de autoestima. E falo como alguém que luta com isso igual a você! Desde a adolescência eu enfrentei esses problemas, e lidei com eles de diversas maneiras que, hoje, considero estúpidas. Algumas vezes me retraindo e me escondendo, como se sozinho comigo mesmo, no meu mundo, eu pudesse ser tão bom quanto queria que os outros achassem que eu era. Outras vezes me impondo, tentando fazer os outros concordarem comigo em quão bom eu era. Me sentia o máximo quando recebia algum elogio. E me sentia um lixo quando recebia qualquer crítica. Hoje, contudo, me sinto envergonhado quando recebo elogios, porque sei que não os mereço, e que sou, na verdade, muito inferior à imagem de bom menino que me é colocada. Quando recebo críticas, avalio elas criticamente. Quero saber se posso melhorar em algo, ou se estou criticado por fazer a coisa certa.

Rir de si mesmo, e saber que não é tão bom assim, nos ajuda a ser felizes, gratos. A levar os problemas com mais paciência e perseverança. A aceitar derrotas como lições para as próximas batalhas.

Portanto, o que posso dizer? Seja humilde, e seja feliz.


E só para deixar bem claro, e que nada fique oculto ou sem ser dito abertamente. A conclusão lógica oculta no que acabo de escrever é que não temos nenhum problema com baixa autoestima. O nosso problema é com uma autoestima alta demais, que nos coloca contra Deus e contra os outros, e nos impede de nos relacionar, amar, se importar, e ser alegres.